
E não é que num tempo de culto ao indivíduo fabricado em série, Gabriel Rezende nos apresenta uma alma singular, na qual cabe um mundo de encontros e de sons? Se tivermos consciência e sorte, daqui a cem anos alguém se perguntará como foi possível tantas linguagens e informações musicais se entrelaçarem com rara beleza nesse Eu lírico. Uma beleza, é verdade, que exige a atenção de quem escuta, como é da natureza das coisas que levaram tempo até ficar prontas. Faixa a faixa, somos convidados a acompanhar mudanças de sonoridade, brincadeiras com as frases musicais, improvisos em meio a estruturas ostensivamente elaboradas. E músicas bonitas sugerindo estados de alma. Um ótimo antídoto para a instantaneidade e a obsolescência programada das mercadorias espetaculosas. E não é que num tempo de desesperança e distopia, de fake news, de alagamentos diluvianos, mortes por altas temperaturas, de guerras e imigrantes afogados, este álbum de Gabriel Rezende fez nascer uma flor no asfalto?
Walter Garcia
Há algo um tanto mágico em lugares de fronteira. Uma indefinição, um sentimento de encruzilhada, uma porosidade ainda maior aos fluxos de coisas, gentes, sons, sabores, mercadorias. Há abandonos também. Melancolia. Conflito. A fronteira parece sempre estar longe de tudo, ainda que seja o ponto em que tudo se toca.
Gabriel habita as fronteiras. Em Foz do Iguaçu, vive em tempo real a consolidação de uma cidade multicultural e ambígua, onde obras de grande estrutura – a Usina de Itaipu e a Universidade Federal da Integração Latino-Americana – reforçam a ideia de cooperação entre as nações, anseio antigo de união com nossos vizinhos.
Ali, em Foz, algo de elétrico acontece. Há espaço para construir, pouco a pouco, alguma coisa que não sabemos o que será, mas que, nebulosa e indefinida, muitos sonham juntos. A música de Gabriel, inteligente e lírica, não ignora a complexidade do ambiente. Ela nos convida a entrar em seu mundo. Um mundo feito de nostalgias e alegrias: as suas, íntimas, mas também as que vêm de fora, sentimentos coletivos capturados no ar. O álbum atravessa gêneros com fluência, sem precisar se posicionar entre canção ou música instrumental, popular ou erudito, brasileiro ou latino-americano, mas sim afirmando-se fruto dessa pluralidade. Um fruto que brota da fricção das fronteiras.
A porosidade estética não é novidade na música popular brasileira. Desde o começo, nossa música absorve o fogo cruzado da informação sem grandes neuroses. Mas Gabriel parece ter incorporado algo sensivelmente diferente em suas composições. Talvez seja o caráter esponjoso dos acontecimentos que só é possível perceber quando se vive num lugar como Foz do Iguaçu, com tantas possibilidades, e ao mesmo tempo a presença misteriosa de um silêncio antigo da América do Sul.
Há poucos dias foi anunciado o projeto de construção de uma filial do Museu Pompidou em Foz. Quando pronto, será símbolo do choque entre a exuberância fora de escala das Cataratas e uma das casas mais emblemáticas da arte contemporânea ocidental, com sede em Paris. A música de Gabriel e seu trabalho árduo na cidade abraçam essas contradições: forças que se unem na esperança de formar nosso tempo.
Lívia Nestrovski e Fred Ferreira
Levei oito anos para voltar a compor. Tempo de imersão nas leituras, nos exercícios, nas análises, na docência e na paternidade. E veio desta última
o impulso para retomar algo que estava adormecido em mim: uma canção sobre a vida reclusa no ventre, à espera da rebentação. Com ela, também veio à luz uma nova maneira de criar. Foi quando, finalmente, senti que tinha uma voz.
Naquele momento (falo aqui de um período situado entre os anos 2018 e 2022), essa voz se mostrou lírica. E me inquietou pensar sobre o lugar do lirismo num tempo e espaço hostis à sensibilidade que ele evoca. Ao invés de silenciá-la, decidi seguir em sua companhia e ver aonde me levaria.
Com palavras, só posso falar desse lugar recuperando uma memória, uma lembrança que me fez sentar nesta cadeira para escrever esta espécie de prelúdio. Há mais ou menos 15 anos, recomendei vivamente a um amigo que fizesse um disco de caráter experimental, com composições e arranjos baseados em formações instrumentais diversas. Lembro a dificuldade que tinha para expressar o que me passava pela cabeça. Agora entendo que falava comigo mesmo. E me reconforta reencontrar aquela intuição mal formulada traduzida nas 10 músicas deste álbum. É um tipo muito particular de felicidade reconhecer-se naquilo que se faz.
Com sons, aquela voz me levou a um lugar que chamei de “Eu Lírico”. A visão de conjunto só é possível à distância.
A voz já é outra, e a novos lugares irei.
Gabriel Rezende